14 de junho de 2012
Caso eu seja
E a terra à volta do sol…
Ou o sol à volta da lua…
A lua à volta da terra…
Ou o contrário todo,
Por aí, eternamente,
Numa dança graciosa,
Harmoniosamente tocante,
Cheia de voltas e encantos,
Coreografia genial,
Sem haver um só engano,
Sem passo que seja trocado,
A boiar nos intervalos,
Deste infinito mundo,
Cheio de vazio sem fundo,
E eu não sei coisa nenhuma,
Já que coisa nenhuma,
É nenhuma coisa,
Fico-me pela gaivota marinha,
Que sobrevoa as águas,
Num lugar qualquer…
Numa pontinha de asa breve,
Roçando a ilha… roçando,
Caso exista o lugar de eu ser gaivota!
12 de junho de 2012
O Não do Sim...
O não do sim….
O sim do não…
O não e o sim…
O sim que é não…
O não que é sim…
O não que é nim…
O sim que é só não…
O não que é só sim…
E sins guardados em nãos,
E nãos contidos nos sins,
Acenos antigos… sins pesados,
Nãos leves…
De sins sentidos,
E nãos percebidos… sonantes… negados…
Em cada sim, começa o mundo,
Em cada não, o seu recomeço,
Que vem de nós e respira no verso,
Um sim nos afasta,
Um não, aproxima,
E mordo a rima…
Um não que afasta…
Um sim que aproxima…
Um não que é seta…
Um sim que é promessa….
Tanto sim em demasia…
Tanto não, que em vão regressa…
Um sim,
Ou um não,
O discreto percurso da vida… imprevisível…
Onde num sim ou num não,
Tudo é possível!
(Para quem me escutou… me percebeu… me ajudou...
E até adivinhou a “história do não e do sim”)
Um não!
E um sorriso Drª Cristina!
A invenção das coisas
Dão-me um ponto na linha da água,
Não tenho mais nada…
Se inundar este branco do papel,
Terei os silêncios que falam,
E o que fala será mudo,
Porque discutem heranças e posses?
Entre o céu e a terra,
Tenho tudo,
E a distância que se abre,
Entre o espaço do meu mundo,
E o lugar do meu nome,
Disfarça, e deixa à porta de mim,
O que me cerca de silêncios,
E me deixa,
Livre… liberta… assim…
E vem na voz dos búzios,
Sonoros sons da alegria,
E trazem o que é daqui,
E nestes confins do confim,
É-me dado perceber,
Que nada disto é p’ra mim…
Busco a voz que me alimenta,
Sal… maremoto… tormenta,
Não tenho nada a perder,
Com tanta palavra a crescer,
E dou por mim tão inteira,
Leio a sina, nos meus dedos,
Como vento que ondeia,
E recomeço de novo,
Como ave no seu voo!
Que mais querem sou assim,
Filha da maresia…
E desta vida… vivida!
Urgências
É urgente saber ainda...
Da Igreja da Conceição,
E do toque das matinas...
Da Escola à nossa espera...
Do Bus azul que vinha da Base,
cheio de risos... rapazes... meninas...
Do toque da campainha,
Da entrada p'la janela...
Em três degraus de madeira,
Ao corredor p'rá Cantina...
Do pequeno posto médico,
Encatrafiado entre o corredor interior,
E a sala das meninas...
Dos piqueniques secretos,
Com araçais e amoras, escondidas na Torrinha,
Dos "cognomes inocentes" ...
Aos nossos respeitados Docentes...
do brilho que tinham os Bailes...
do olhar atento das mães...
Da cumplicidade (já á altura)
Do Dr.Víctor Magalhães...
Das escapadelas furtivas...
Até ao Jardim e tanque do preto...
No começo dum namoro, desperto...
Ladeira de S. Francisco...
(Santo que é do meu pai...)
Onde é que isto já vai...
Lembranças... amigos lembranças...
Que fazem das nossas tranças, cabelos brancos, grisalhos…
Alegrias... sorrisos e ralhos...
Tanto que eu vos contaria...
Se mais hoje papel haveria...
Há coisas que já "me esqueço"...
Mas, voltarei... eu prometo...
Da Escola... e desse tempo...
Não se "me esqueceu" o endereço!
11 de junho de 2012
O nada...
Do nada que tem o nada,
Do nada que o nada tem,
Do nada que é tudo e nada,
E do nada que é muito tudo,
Há pouco do muito nada,
Há muito do nada tudo,
E o tudo mudou o rumo...
E o nada resiste e é fruto,
Doce, amargo,
Como só o nada e o tudo,
Ou o tudo que é o nada,
Ou o nada que é o tudo,
Até perder de vista,
A orla do meu futuro!
No nada que o nada tem...Que o nada enche de nada,
E te faz pensar que tens tudo...
Mas que é afinal... nada é...
.Se não um grande ou pequeno nada...
Que por ser nada... Ou tudo...
Te faz pensar... num "escudo",
Que é nada... mas está no escuro...
E dentro constrói um muro...
Feito de nada e de tudo...
E te deixa... por vezes só... por vezes mudo...
Sem explicação para tudo....
Que o nada e o tudo...
São tudo e são nada,
E te deixam calada....
Só... vazia... amordaçada...
E com nada e tudo....
Não possuis nada....
A não ser a palavra...
Ás tintas da minha amiga Zulmira
Um dia vou dar-te... um azul de mar que era cor de anil...
E pintava os sonhos como versos que eu tinha...
Hei-de encontrar o roxo... mais roxo da "nossa Saudade"...
E da nossa Lira...
Do branco da cor da crista da onda... leve como pluma de gaivota...
Do verde-verde dos pastos... que entra no olhar e fica...
Se o meu tempo não chegar... farei que te cheguem...
As cores por pintar... Eu estarei fora de prazo...
Mas não as minhas tintas...
Um dia pintarás com elas a porta... a rua... a casa...
A nudez da vida...
Entre cais... malas e vapores...
Cabelos... laços... fitas em desalinho...
Eu serei... a transportadora das cores a meio do caminho...
As palavras por vezes "desfazem-se"... nas correntes do ar...
Põe-nas "junto à mão", na expectativa do meu coração...
Ó coisas da nossa infância!
Bem que o sinto, o toque do vento,
O vento vindo do cais,
Corpo Santo, acima trepando… assobiando,
Na curva da casa do António,
Enrolando, à volta da Igreja da Conceição,
Descendo a Rua do Morrão…
Bem que os ouço os sinos tocando,
E o nosso riso, no largo “atrás-das-hortas”,
Correndo e gritando, aos morcegos:
…”Toma lá azeite! Toma lá azeite!...”
(E ainda não desvendei o porquê)
Ainda a sinto e vejo, a avermelhada bola de fogo,
Por cima do teto da ilha…
O sol a ser engolido p’lo mar,
E lá ao longe o ilhéu, o canto do garajau,
Ainda ouço as despedidas,
E os “planos”, p’ra outro dia!
E o céu a escurecer, no alto da clarabóia,
Do meu quarto de menina,
Colcha branca e cor-de-rosa,
Fazendo crescer no meu peito,
Palavras para outra história,
Já tocaram as matinas,
E a bata branca enfiada,
Com não sei quantas listas,
Bordadas, na manga, levava,
Porta fora… Rua do Galo descida,
Praça Velha atravessada…
Subindo a rua da Sé…
Num pulo, no Alto das Covas,
Imponente, a nossa Escola,
Dum lado meninos, do outro meninas,
(No meu tempo, “era a moda”)!
E o cheiro ainda o sinto,
De “ponta de lápis, acabado de afiar,
Do tinteiro, que era branco,
E dos dedos a azular…
Do pátio, com um lago ao centro,
E dos corredores à volta, onde se cantava,
“No alto daquela serra... está um lenço a acenar…
Eu fui ao jardim da Celeste…Um abraço te vou dar…
Tanta laranja da China, tanto limão pelo chão,
Tanto sangue derramado dentro do meu coração…”
E jogava-se……
Jogava-se ás saquinhas de arroz…
Ás apanhadas… Ao gavião…
E jogava-se ás “piorrinhas”.
Com uma bola vermelhinha,
Que vinham embaladinhas, na caixa azul e vermelha,
Que “umas senhoras”, traziam,
E a que nós tão infantilmente chamávamos como
“Dia das Caixinhas”!
Perdidas no tempo,
Na memória guardadas,
E de ternura, entremeadas!
Onde as minhas tranças, que por “mon”,
Duma “gama”, se viram, cortadas?
E das tranças, passei a usar,
Corte “à la garçonne”!
Que “raio de ideia”!
Aquelas franjinhas!
E eu a pensar que da França,
Só vinham, eram criancinhas…
Eu, não!
Que vim na cesta de costurar,
E da roupa p’ra engomar…
Um dia destes, eu contarei…
Hoje, não!
Hoje, não digo mais nada….
Que as Trindades aqui já foram batidas…
E Trindades batidas,
Meninas “arrecolhidas”!
P.S. Falarei dos pirolitos…”ice-cremes” e malaguetas,
Milhos de “Freira”… povides… e outras “tretas”!
15 de maio de 2012
COISAS DE SER-SE ILHÉU...
Com a ilha de permeio...
"Papejando" no meu peito... um coração marinheiro...
Ligo por entre os dias... nuvens... aves e "queimados"...
Vento Norte... E o mar é cheio!
Oh! minha estrada marinha,
Que no meu peito se empedra,
que no sonho se exalta,
E a saudade é uma cantiga:
"Maré Alta! Maré Alta!"
E este horizonte no fim,
Com" carneirinhos" rodando,
Fincam-se junto ao ilhéu,
E no meu peito sobrando...
Que mar-ilha e ilhéu,
Escola... Ruas.... travessas
Casas brancas... barras belas coloridas...
Saudades... promessas... lembranças...
E me acrescentam assim... na ilha que vive em mim,
Da ilha que vive em mim... Do que em mim...vive esta ilha...
Minha árvore e raiz..... Sempre serei sua filha!
Mari' Angra
31 de março de 2012
Em jeito de despedir...
31/03/2012 8:45
Bebo o meu pingado no “Lava Preta” sito nos Biscoitos!
Queimo os últimos cartuchos, e tenho o coração aberto à partida,
Encharquei-me de mar e sal…
E volto à minha fria e inóspita terra que me acolheu!
Mas o que sinto neste momento é que:
Vou para casa”
Volto pra casa!
Pertencerei aqui, como as aves migratórias,
Mas o meu poiso definiu a sua morada…
E volto como uma menina ao colo de quem me ama,
Com um abraço embalado de saudade.
“Engraçado” o tempo de descobrir!
Esta já não é mais a minha dimensão,
Meu coração fez-se Beirão…!
Etiquetas:
Biscoitos; Lava Preta; migratórias
19 de março de 2012
Por dentro dos Sentidos
(Ao antigo Grupo Coral da Conceição;
Ao meu companheiro, que faz dos meus sonhos verdades;
Aos meus primos, a família que me resta;
A vós, amigos, a restante família que adoptei mesmo que não quisessem!)
Se a saudade falasse e contasse,
Faria de novo um Coro,
E na voz trocada, feita Querubim,
Traria lembranças, saídas de mim!
Mas parado ficou, meu coração,
Tocado de orvalho, em bruma guardado,
Com cheiro de amora, gosto de Alfenim!
E nada murchou… Num tempo sem fim!
E pedi ao tempo:
“Não faças barulho”!
Mas o tempo passou, agarrou-me revolto,
Por vezes alegre, por vezes injusto…
E deixou-me ancorada… Num lugar sem nome,
Poisada nele…Num enternecer, de nunca esquecer…
Mas agora, eu sei! E riu baixinho,
Pois, que o tempo não sabe, de amizade, ou amor…
O tempo não sabe, nunca amou ninguém!
Que a saudade é o tempo de só existir,
Quando muito se quer, ou se lembra d’alguém,
E ter saudade, não é viver no passado!
Mas só ter vivas recordações,
Saber de vós… De cada um…
Nunca vos perdi! Hoje encontrei-vos…
E é uma alegria, que de tão alegre, até me dói,
Mas que me encanta, me deslumbra e me constrói,
E no regresso, levarei na mala,
A mesma saudade, com a simplicidade,
De não saber nada!
E por todos vós, os que estão e não estão,
No coração, um laço, apertado em nó!
E esta lembrança, que se fez alento,
E fará os dias, que terá o meu tempo!
19/03/2012 Mª José de Azevedo Ferreira
Etiquetas:
Coral; Conceição; Saudade; Ilha
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