12 de junho de 2012

Urgências


É urgente saber ainda...

Da Igreja da Conceição,
E do toque das matinas...
Da Escola à nossa espera...
Do Bus azul que vinha da Base,
cheio de risos... rapazes... meninas...
Do toque da campainha,
Da entrada p'la janela...
Em três degraus de madeira,
Ao corredor p'rá Cantina...
Do pequeno posto médico,
Encatrafiado entre o corredor interior,
E a sala das meninas...
Dos piqueniques secretos,
Com araçais e amoras, escondidas na Torrinha,
Dos "cognomes inocentes" ...
Aos nossos respeitados Docentes...
do brilho que tinham os Bailes...
do olhar atento das mães...
Da cumplicidade (já á altura)
Do Dr.Víctor Magalhães...
Das escapadelas furtivas...
Até ao Jardim e tanque do preto...
No começo dum namoro, desperto...
Ladeira de S. Francisco...
(Santo que é do meu pai...)
Onde é que isto já vai...
Lembranças... amigos lembranças...
Que fazem das nossas tranças, cabelos brancos, grisalhos…
Alegrias... sorrisos e ralhos...
Tanto que eu vos contaria...
Se mais hoje papel haveria...
Há coisas que já "me esqueço"...
Mas, voltarei... eu prometo...
Da Escola... e desse tempo...
Não se "me esqueceu" o endereço!



11 de junho de 2012

O nada...


Do nada que tem o nada,
Do nada que o nada tem,
Do nada que é tudo e nada,
E do nada que é muito tudo,
Há pouco do muito nada,
Há muito do nada tudo,
E o tudo mudou o rumo...
E o nada resiste e é fruto,
Doce, amargo,
Como só o nada e o tudo,
Ou o tudo que é o nada,
Ou o nada que é o tudo,
Até perder de vista,
A orla do meu futuro!

No nada que o nada tem...Que o nada enche de nada,
E te faz pensar que tens tudo...
Mas que é afinal... nada é...
.Se não um grande ou pequeno nada...
Que por ser nada... Ou tudo...
Te faz pensar... num "escudo",
Que é nada... mas está no escuro...
E dentro constrói um muro...
Feito de nada e de tudo...
E te deixa... por vezes só... por vezes mudo...
Sem explicação para tudo....
Que o nada e o tudo...
São tudo e são nada,
E te deixam calada....
Só... vazia... amordaçada...
E com nada e tudo....
Não possuis nada....
A não ser a palavra...


Ás tintas da minha amiga Zulmira


Um dia vou dar-te... um azul de mar que era cor de anil...
E pintava os sonhos como versos que eu tinha...
Hei-de encontrar o roxo... mais roxo da "nossa Saudade"...
E da nossa Lira...
Do branco da cor da crista da onda... leve como pluma de gaivota...
Do verde-verde dos pastos... que entra no olhar e fica...
Se o meu tempo não chegar... farei que te cheguem...
As cores por pintar... Eu estarei fora de prazo...
Mas não as minhas tintas...
Um dia pintarás com elas a porta... a rua... a casa...
A nudez da vida...
Entre cais... malas e vapores...
Cabelos... laços... fitas em desalinho...
Eu serei... a transportadora das cores a meio do caminho...
As palavras por vezes "desfazem-se"... nas correntes do ar...
Põe-nas "junto à mão", na expectativa do meu coração...



Ó coisas da nossa infância!


Bem que o sinto, o toque do vento,
O vento vindo do cais,
Corpo Santo, acima trepando… assobiando,
Na curva da casa do António,
Enrolando, à volta da Igreja da Conceição,
Descendo a Rua do Morrão…
Bem que os ouço os sinos tocando,
E o nosso riso, no largo “atrás-das-hortas”,
Correndo e gritando, aos morcegos:
…”Toma lá azeite! Toma lá azeite!...”
(E ainda não desvendei o porquê)
Ainda a sinto e vejo, a avermelhada bola de fogo,
Por cima do teto da ilha…
O sol a ser engolido p’lo mar,
E lá ao longe o ilhéu,  o canto do garajau,
Ainda ouço as despedidas,
E os “planos”, p’ra outro dia!
E o céu a escurecer, no alto da clarabóia,
Do meu quarto de menina,
Colcha branca e cor-de-rosa,
Fazendo crescer no meu peito,
Palavras para outra história,
Já tocaram as matinas,
E a bata branca enfiada,
Com não sei quantas listas,
Bordadas, na manga, levava,
Porta fora… Rua do Galo descida,
Praça Velha atravessada…
Subindo a rua da Sé…
Num pulo, no Alto das Covas,
Imponente, a nossa Escola,
Dum lado meninos, do outro meninas,
(No meu tempo, “era a moda”)!
E o cheiro ainda o sinto,
De “ponta de lápis, acabado de afiar,
Do tinteiro, que era branco,
E dos dedos a azular…
Do pátio, com um lago ao centro,
E dos corredores à volta, onde se cantava,
“No alto daquela serra... está um lenço a acenar…
Eu fui ao jardim da Celeste…Um abraço te vou dar…
Tanta laranja da China, tanto limão pelo chão,
Tanto sangue derramado dentro do meu coração…”
E jogava-se……
Jogava-se ás saquinhas de arroz…
Ás apanhadas… Ao gavião…
E jogava-se ás “piorrinhas”.
Com uma bola vermelhinha,
Que vinham embaladinhas, na caixa azul e vermelha,
Que “umas senhoras”, traziam,
E a que nós tão infantilmente chamávamos como
“Dia das Caixinhas”!
Perdidas no tempo,
Na memória guardadas,
E de ternura, entremeadas!
Onde as minhas tranças, que por “mon”,
Duma “gama”, se viram, cortadas?
E das tranças, passei a usar,
Corte “à la garçonne”!
Que “raio de ideia”!
Aquelas franjinhas!
E eu a pensar que da França,
Só vinham, eram criancinhas…
Eu, não!
Que vim na cesta de costurar,
E da roupa p’ra engomar…
Um dia destes, eu contarei…
Hoje, não!

Hoje, não digo mais nada….
Que as Trindades aqui já foram batidas…

E Trindades batidas,
Meninas “arrecolhidas”!

P.S. Falarei dos pirolitos…”ice-cremes” e malaguetas,
       Milhos de “Freira”… povides… e outras “tretas”!



15 de maio de 2012

COISAS DE SER-SE ILHÉU...


Vou atravessando a vida,
Com a ilha de permeio...
"Papejando" no meu peito... um coração marinheiro...
Ligo por entre os dias... nuvens... aves e "queimados"...
Vento Norte... E o mar é cheio!
Oh! minha estrada marinha,
Que no meu peito se empedra,
que no sonho se exalta,
E a saudade é uma cantiga:
"Maré Alta! Maré Alta!"
E este horizonte no fim,
Com" carneirinhos" rodando,
Fincam-se junto ao ilhéu,
E no meu peito sobrando...
Que mar-ilha e ilhéu,
Escola... Ruas.... travessas
Casas brancas... barras belas coloridas...
Saudades... promessas... lembranças...
E me acrescentam assim... na ilha que vive em mim,
Da ilha que vive em mim... Do que em mim...vive esta ilha...
Minha árvore e raiz..... Sempre serei sua filha!


Mari' Angra

31 de março de 2012

Em jeito de despedir...


 31/03/2012   8:45
Bebo o meu pingado no “Lava Preta” sito nos Biscoitos!
Queimo os últimos cartuchos, e tenho o coração aberto à partida,
Encharquei-me de mar e sal…
E volto à minha fria e inóspita terra que me acolheu!
Mas o que sinto neste momento é que:
Vou para casa”
Volto pra casa!
Pertencerei aqui, como as aves migratórias,
Mas o meu poiso definiu a sua morada…
E volto como uma menina ao colo de quem me ama,
Com um abraço embalado de saudade.
“Engraçado” o tempo de descobrir!
Esta já não é mais a minha dimensão,
Meu coração fez-se Beirão…!


19 de março de 2012

Por dentro dos Sentidos


(Ao antigo Grupo Coral da Conceição;
Ao meu companheiro, que faz dos meus sonhos verdades;
Aos meus primos, a família que me resta;
A vós, amigos, a restante família que adoptei mesmo que não quisessem!)

Se a saudade falasse e contasse,
Faria de novo um Coro,
E na voz trocada, feita Querubim,
Traria lembranças, saídas de mim!
Mas parado ficou, meu coração,
Tocado de orvalho, em bruma guardado,
Com cheiro de amora, gosto de Alfenim!
E nada murchou… Num tempo sem fim!
E pedi ao tempo:
“Não faças barulho”!
Mas o tempo passou, agarrou-me revolto,
Por vezes alegre, por vezes injusto…
E deixou-me ancorada… Num lugar sem nome,
Poisada nele…Num enternecer, de nunca esquecer…
Mas agora, eu sei! E riu baixinho,
Pois, que o tempo não sabe, de amizade, ou amor…
O tempo não sabe, nunca amou ninguém!
Que a saudade é o tempo de só existir,
Quando muito se quer, ou se lembra d’alguém,
E ter saudade, não é viver no passado!
Mas só ter vivas recordações,
Saber de vós… De cada um…
Nunca vos perdi! Hoje encontrei-vos…
E é uma alegria, que de tão alegre, até me dói,
Mas que me encanta, me deslumbra e me constrói,
E no regresso, levarei na mala,
A mesma saudade, com a simplicidade,
De não saber nada!
E por todos vós, os que estão e não estão,
No coração, um laço, apertado em nó!
E esta lembrança, que se fez alento,
E fará os dias, que terá o meu tempo!

19/03/2012  Mª José de Azevedo Ferreira
”Menina-de-trás-das-Hortas”



16 de março de 2012

Voando por cima das nuvens



 16/03/2012   8:45, hora de Lisboa


Mil pensamentos esvoaçam,
Olho a asa que voa e não voa…
Parada a nuvem ao lado… voadora!
A que se esbate ao fundo.
O zumbido contínuo
Que tento isolar,
É que me dá a sensação de estar a voar…
E vou encurtando
Por dentro o tempo, com diferentes horas no pensamento!
Estas são horas, que duraram meses,
Acordando… dormindo… progredindo!
À minha frente,
Uma tela mostra um mar e golfinhos,
Espuma e brilhos
Em louca cegueira
E de quando em vez… um buraco no céu…
Uma tremedeira!
Neste voo que faço
Em que trago cansaço,
Mas com este traço, entre a ilha e mim…
Cresce, cresce sem fim ou sem fundo,
A caminho “d’outro mundo”!


Vão dar-me chá… e digo:
“Até já!”



27 de fevereiro de 2012

"Amanhã" ( Por causa d’hoje)


Hoje vou lembrar tempos antigos!
Do barulho do mar p'las noites de temporal,
Do vento a assobiar pelo telhado...
Da luz do candeeiro a estremecer...
Do cheiro das maçãs-pêro, perfumando o chão do sótão…
Dos murganhos a correr…
Vou lembrar-me de meu pai…
“Alvaroços “ bem lavados… desperdícios pelos bolsos…
Saxofone a brilhar…
Vou lembrar-me de meu pai,
No seu ar risonho, acostumado!
Vou lembrar das sextas-feiras na Guarita,
Da tia Emília a cozer pão alvo,
No seu ar afadigado…
Vou lembrar-me dos suspiros… das filhós,
Da batata-doce assada e da farinha torrada…
E do gato a ronronar de descansado…
Vou lembrar-me do sino da Conceição a tocar…
Das traineiras a partir…
Do meu Fiel que acordou a ladrar…
De um foguete atirado para o ar…
Da limpidez de um céu estrelado,
Da bênção que pedia a meus pais…
Vou lembrar-me da avó Maria,
Das tia emigradas no Brasil,
E que da América, vinham sacas,
Com “roipas coisas e loisas”…
Vou lembrar-me dum Coro de jovens a cantar,
Da bandeja, onde punha a riqueza dum tostão…
Das risadas, engasgadas no Refrão…
Do Josézinho Sacristão… E do nosso Padre Adão!
E das “gamas e candins”, que guardava,
Na saquinha de retalhos,
Que a avó Maria fazia…
Já de olhos demorados…
Vou lembrar-me…
E amanhã… Num amanhã que há-de vir…
Ireis lembrar-vos tal como eu,
“Desta parte da vida”, que foi feliz…
Que me fez… e me lembrou,
Hoje, talvez…
Porque a memória assim o quis !

Viajante


Viajo no tempo,
E um cheiro forte,
Polvilha o caminho
De terra queimada
E trago histórias,
Adivinhadas,
E outras tantas,
Nunca contadas…
Sinto-me antiga,
No rosto cai,
Um tom de azul…
Um quase nada…
No meu querer …
A madrugada!
Rodou a maré…
E a maré, mudou o rumo,
E os “Porquês”,
Vieram juntos,
Pelas manhãs,
E milagres tinham no meu regaço,
Guardados bem,
Tornando a vida, em pedacinhos,
Largando aqui,
Ali… Além!
Fui sendo eu…
Não sei ainda… Não me deixei poder ficar,
Demasiado tempo… pousada na vida,
Faltou-me tempo,
Para voar…
Mas agarrar-me à vida,
Fá-lo-ei sempre… mesmo sem nada…
Tão simplesmente,
Porque me garante, a garantia,
De ser eu esta….
Sobrevivente!