11 de junho de 2012

Ás tintas da minha amiga Zulmira


Um dia vou dar-te... um azul de mar que era cor de anil...
E pintava os sonhos como versos que eu tinha...
Hei-de encontrar o roxo... mais roxo da "nossa Saudade"...
E da nossa Lira...
Do branco da cor da crista da onda... leve como pluma de gaivota...
Do verde-verde dos pastos... que entra no olhar e fica...
Se o meu tempo não chegar... farei que te cheguem...
As cores por pintar... Eu estarei fora de prazo...
Mas não as minhas tintas...
Um dia pintarás com elas a porta... a rua... a casa...
A nudez da vida...
Entre cais... malas e vapores...
Cabelos... laços... fitas em desalinho...
Eu serei... a transportadora das cores a meio do caminho...
As palavras por vezes "desfazem-se"... nas correntes do ar...
Põe-nas "junto à mão", na expectativa do meu coração...



Ó coisas da nossa infância!


Bem que o sinto, o toque do vento,
O vento vindo do cais,
Corpo Santo, acima trepando… assobiando,
Na curva da casa do António,
Enrolando, à volta da Igreja da Conceição,
Descendo a Rua do Morrão…
Bem que os ouço os sinos tocando,
E o nosso riso, no largo “atrás-das-hortas”,
Correndo e gritando, aos morcegos:
…”Toma lá azeite! Toma lá azeite!...”
(E ainda não desvendei o porquê)
Ainda a sinto e vejo, a avermelhada bola de fogo,
Por cima do teto da ilha…
O sol a ser engolido p’lo mar,
E lá ao longe o ilhéu,  o canto do garajau,
Ainda ouço as despedidas,
E os “planos”, p’ra outro dia!
E o céu a escurecer, no alto da clarabóia,
Do meu quarto de menina,
Colcha branca e cor-de-rosa,
Fazendo crescer no meu peito,
Palavras para outra história,
Já tocaram as matinas,
E a bata branca enfiada,
Com não sei quantas listas,
Bordadas, na manga, levava,
Porta fora… Rua do Galo descida,
Praça Velha atravessada…
Subindo a rua da Sé…
Num pulo, no Alto das Covas,
Imponente, a nossa Escola,
Dum lado meninos, do outro meninas,
(No meu tempo, “era a moda”)!
E o cheiro ainda o sinto,
De “ponta de lápis, acabado de afiar,
Do tinteiro, que era branco,
E dos dedos a azular…
Do pátio, com um lago ao centro,
E dos corredores à volta, onde se cantava,
“No alto daquela serra... está um lenço a acenar…
Eu fui ao jardim da Celeste…Um abraço te vou dar…
Tanta laranja da China, tanto limão pelo chão,
Tanto sangue derramado dentro do meu coração…”
E jogava-se……
Jogava-se ás saquinhas de arroz…
Ás apanhadas… Ao gavião…
E jogava-se ás “piorrinhas”.
Com uma bola vermelhinha,
Que vinham embaladinhas, na caixa azul e vermelha,
Que “umas senhoras”, traziam,
E a que nós tão infantilmente chamávamos como
“Dia das Caixinhas”!
Perdidas no tempo,
Na memória guardadas,
E de ternura, entremeadas!
Onde as minhas tranças, que por “mon”,
Duma “gama”, se viram, cortadas?
E das tranças, passei a usar,
Corte “à la garçonne”!
Que “raio de ideia”!
Aquelas franjinhas!
E eu a pensar que da França,
Só vinham, eram criancinhas…
Eu, não!
Que vim na cesta de costurar,
E da roupa p’ra engomar…
Um dia destes, eu contarei…
Hoje, não!

Hoje, não digo mais nada….
Que as Trindades aqui já foram batidas…

E Trindades batidas,
Meninas “arrecolhidas”!

P.S. Falarei dos pirolitos…”ice-cremes” e malaguetas,
       Milhos de “Freira”… povides… e outras “tretas”!



15 de maio de 2012

COISAS DE SER-SE ILHÉU...


Vou atravessando a vida,
Com a ilha de permeio...
"Papejando" no meu peito... um coração marinheiro...
Ligo por entre os dias... nuvens... aves e "queimados"...
Vento Norte... E o mar é cheio!
Oh! minha estrada marinha,
Que no meu peito se empedra,
que no sonho se exalta,
E a saudade é uma cantiga:
"Maré Alta! Maré Alta!"
E este horizonte no fim,
Com" carneirinhos" rodando,
Fincam-se junto ao ilhéu,
E no meu peito sobrando...
Que mar-ilha e ilhéu,
Escola... Ruas.... travessas
Casas brancas... barras belas coloridas...
Saudades... promessas... lembranças...
E me acrescentam assim... na ilha que vive em mim,
Da ilha que vive em mim... Do que em mim...vive esta ilha...
Minha árvore e raiz..... Sempre serei sua filha!


Mari' Angra

31 de março de 2012

Em jeito de despedir...


 31/03/2012   8:45
Bebo o meu pingado no “Lava Preta” sito nos Biscoitos!
Queimo os últimos cartuchos, e tenho o coração aberto à partida,
Encharquei-me de mar e sal…
E volto à minha fria e inóspita terra que me acolheu!
Mas o que sinto neste momento é que:
Vou para casa”
Volto pra casa!
Pertencerei aqui, como as aves migratórias,
Mas o meu poiso definiu a sua morada…
E volto como uma menina ao colo de quem me ama,
Com um abraço embalado de saudade.
“Engraçado” o tempo de descobrir!
Esta já não é mais a minha dimensão,
Meu coração fez-se Beirão…!


19 de março de 2012

Por dentro dos Sentidos


(Ao antigo Grupo Coral da Conceição;
Ao meu companheiro, que faz dos meus sonhos verdades;
Aos meus primos, a família que me resta;
A vós, amigos, a restante família que adoptei mesmo que não quisessem!)

Se a saudade falasse e contasse,
Faria de novo um Coro,
E na voz trocada, feita Querubim,
Traria lembranças, saídas de mim!
Mas parado ficou, meu coração,
Tocado de orvalho, em bruma guardado,
Com cheiro de amora, gosto de Alfenim!
E nada murchou… Num tempo sem fim!
E pedi ao tempo:
“Não faças barulho”!
Mas o tempo passou, agarrou-me revolto,
Por vezes alegre, por vezes injusto…
E deixou-me ancorada… Num lugar sem nome,
Poisada nele…Num enternecer, de nunca esquecer…
Mas agora, eu sei! E riu baixinho,
Pois, que o tempo não sabe, de amizade, ou amor…
O tempo não sabe, nunca amou ninguém!
Que a saudade é o tempo de só existir,
Quando muito se quer, ou se lembra d’alguém,
E ter saudade, não é viver no passado!
Mas só ter vivas recordações,
Saber de vós… De cada um…
Nunca vos perdi! Hoje encontrei-vos…
E é uma alegria, que de tão alegre, até me dói,
Mas que me encanta, me deslumbra e me constrói,
E no regresso, levarei na mala,
A mesma saudade, com a simplicidade,
De não saber nada!
E por todos vós, os que estão e não estão,
No coração, um laço, apertado em nó!
E esta lembrança, que se fez alento,
E fará os dias, que terá o meu tempo!

19/03/2012  Mª José de Azevedo Ferreira
”Menina-de-trás-das-Hortas”



16 de março de 2012

Voando por cima das nuvens



 16/03/2012   8:45, hora de Lisboa


Mil pensamentos esvoaçam,
Olho a asa que voa e não voa…
Parada a nuvem ao lado… voadora!
A que se esbate ao fundo.
O zumbido contínuo
Que tento isolar,
É que me dá a sensação de estar a voar…
E vou encurtando
Por dentro o tempo, com diferentes horas no pensamento!
Estas são horas, que duraram meses,
Acordando… dormindo… progredindo!
À minha frente,
Uma tela mostra um mar e golfinhos,
Espuma e brilhos
Em louca cegueira
E de quando em vez… um buraco no céu…
Uma tremedeira!
Neste voo que faço
Em que trago cansaço,
Mas com este traço, entre a ilha e mim…
Cresce, cresce sem fim ou sem fundo,
A caminho “d’outro mundo”!


Vão dar-me chá… e digo:
“Até já!”



27 de fevereiro de 2012

"Amanhã" ( Por causa d’hoje)


Hoje vou lembrar tempos antigos!
Do barulho do mar p'las noites de temporal,
Do vento a assobiar pelo telhado...
Da luz do candeeiro a estremecer...
Do cheiro das maçãs-pêro, perfumando o chão do sótão…
Dos murganhos a correr…
Vou lembrar-me de meu pai…
“Alvaroços “ bem lavados… desperdícios pelos bolsos…
Saxofone a brilhar…
Vou lembrar-me de meu pai,
No seu ar risonho, acostumado!
Vou lembrar das sextas-feiras na Guarita,
Da tia Emília a cozer pão alvo,
No seu ar afadigado…
Vou lembrar-me dos suspiros… das filhós,
Da batata-doce assada e da farinha torrada…
E do gato a ronronar de descansado…
Vou lembrar-me do sino da Conceição a tocar…
Das traineiras a partir…
Do meu Fiel que acordou a ladrar…
De um foguete atirado para o ar…
Da limpidez de um céu estrelado,
Da bênção que pedia a meus pais…
Vou lembrar-me da avó Maria,
Das tia emigradas no Brasil,
E que da América, vinham sacas,
Com “roipas coisas e loisas”…
Vou lembrar-me dum Coro de jovens a cantar,
Da bandeja, onde punha a riqueza dum tostão…
Das risadas, engasgadas no Refrão…
Do Josézinho Sacristão… E do nosso Padre Adão!
E das “gamas e candins”, que guardava,
Na saquinha de retalhos,
Que a avó Maria fazia…
Já de olhos demorados…
Vou lembrar-me…
E amanhã… Num amanhã que há-de vir…
Ireis lembrar-vos tal como eu,
“Desta parte da vida”, que foi feliz…
Que me fez… e me lembrou,
Hoje, talvez…
Porque a memória assim o quis !

Viajante


Viajo no tempo,
E um cheiro forte,
Polvilha o caminho
De terra queimada
E trago histórias,
Adivinhadas,
E outras tantas,
Nunca contadas…
Sinto-me antiga,
No rosto cai,
Um tom de azul…
Um quase nada…
No meu querer …
A madrugada!
Rodou a maré…
E a maré, mudou o rumo,
E os “Porquês”,
Vieram juntos,
Pelas manhãs,
E milagres tinham no meu regaço,
Guardados bem,
Tornando a vida, em pedacinhos,
Largando aqui,
Ali… Além!
Fui sendo eu…
Não sei ainda… Não me deixei poder ficar,
Demasiado tempo… pousada na vida,
Faltou-me tempo,
Para voar…
Mas agarrar-me à vida,
Fá-lo-ei sempre… mesmo sem nada…
Tão simplesmente,
Porque me garante, a garantia,
De ser eu esta….
Sobrevivente!

5 de setembro de 2011

O silêncio, não é sempre um engano...

... E há tristezas, que se soltam de lugares secretos... e nos navegam os gestos... e embriagam os olhos...
E é um grão de areia... em poeira de luz clara...
Onda de mar... tocando a face de sal... e o corpo da alma tem um sabor exausto... como um infinito parto...
Afago a vida, para comandar o sentido das coisas...
Enroscando-me, na minha concha de "lapa burra", para brilhar de madre-pérola...
É preciso dar ocupação à "ave que magoada por vezes voa em nós"... num minuto de cinza...
E peço ao vento que leve tudo... ao vento que vem da Nave... cortado, frio e rápido...
E tenho mil sonhos na minha mente "descrente-crente", nesta aventura de ser:Eu!
E esta emaranhada teia, escrava nas minhas mãos, plantando palavras que redescubro, nesta dimensão...
Todo o nada me toca... e é tudo... dona de tudo... sem nada ter...
Simplesmente porque num minuto talharam em mim este "sabor de sempre"...
E entro pelas frechas de mim, por onde escorrem as minhas lutas "enlutadas"...
E ás vezes, sou "menos eu", em viagens, mil vezes adiadas...
Desta que em mim faço nascer... "empoemamdo-me" a esta entrega, a que livre me "condeno"!
E continuo de coração descalço, sobre a vida!
As palavras "estão por um fio"...
Fico por aqui!

23 de agosto de 2011

"Ao sabor das minhas marés"!


...Os meus sonhos ás vezes sonham ser ondas...
Sei o que digo... porque as palavras sabem a linguagem dos peixes...
E nasci olhando um ilhéu, a minha voz ficou presa, nas pegadas da areia...
Tenho dentro de mim, o sotaque do mar...
E amanheço, porque as gaivotas espalham o seu canto...
E "por vezes" alcançam a lua!...
E sou uma nuvem desfiada,
E acrescento-me em cada maré cheia...
Tacteio a terra até ser rocha...
Tacteio o tempo até ser água...
Inexplicávelmente ás vezes sou nenúfar (mas não me perguntem porquê)...
No rosto a água de sal...
Sal que se torna despedida...
E em dois azuis me misturo...
Mar inteiro...
Céu sem fim!
E o tempo pára, no espanto das memórias!...

(Não era eu, feita pássaro... mas a ilha que voava)!...