2 de junho de 2010

Dias de meditar

  
As mãos esquecidas, no sossego brando da vida, numa paz sem tormento, que põe nos olhos o fulgor que os nomes e os livros não dizem.

Ando a ver se não perco a emoção que retempera, o consolo que devolve a luz à voz.

O cansaço que avassala o espírito não tolhe a inspiração, mas interrompe o sonho…

Ergo as palavras no silêncio das mãos.

E fecho-me nelas pelo lado de dentro,

Com as chaves de um entendimento brando,

As palavras tem assim luz própria, como uma estrela,

Ou uma comunhão de pétalas…


Quando os cântaros do céu se entornam e as aves tentam roçar a lua

 
Habito do lado dos que misturam
As nervuras com cetins, e assim as fazem rimar
Numa magia profunda… densa,
Que aglutino e condenso em mim…
Janelas por dentro se abrem,
Brilham e nascem as letras…
Dançam… Pensam…
Tornam-se o reino das coisas,
Onde tudo vem por dentro
Dum lugar varrido… limpo.
E emerge, cresce subindo
No caule do fio do pensamento,
Esta minha moradia,
Na pura e simples nudez
Com que se veste o coração
É assim, encostada á vida.
A minha morada de hora imprecisa
Perde-se em sonhos, inventados da mente
Trazendo-me á boca raras palavras
De que raro falo,
Porque ser-se assim é por dentro!

31 de maio de 2010

Raizes de mim!

Se a saudade fosse coisa...
e não fosse coisa bela,
sem ser coisa percebida, seria assim, de tão bela?
Na memória, molha-me a história,
ficando eu maresia,
longos braços... dedos d'água...
toque de verde... pasto... trigo...
mar chão, lua clara,
desfeita espuma na areia,
ao lado de mim poisada,
esta ilha... a vida inteira!
Apoderou-se de mim,
em água de sal marcada,
por detrás do meu olhar, tocada de leve... intocável,
minh'alma de marear...
Terra... ilha, meu torrão...
meu berço, casa, guarida...
minha marca a ferro, fogo gravada,
ontem, hoje... muitos dias,
Toda a vida!


28 de maio de 2010


E pertenço á ilha... sinto o perfume dos tons... os cheiros do ar...
Sei que as ondas tem o linguajar dos países... escuto a conversa dos búzios... o silêncio táctil das conchas...
Não procuro a razão desta pertença, quero só o feitiço de pertencer-lhe!

Confabulando

Ó minha vida entornada... meus olhos de marear... meu coração sobre o mar!
Quero ser pássaro no verde, num sono que em ilha me afogue... consciente e repousada... leve, lisa... asa pousada... onda leve sobre a água...
Circulando em maré-cheia... segredos urdidos na veia...!

Hoje estou cansada de pendurar estrelas no céu... vou tecer uma teia de silêncio com gotas de azul e mar... e encontrar o lugar d'o sossego não ter fim...
Quem derramou no chão a voz de "ser poeta", do pouco que há em mim?!...


quaseinteressante.blogspot.com

21 de março de 2010

Janelas de sonhos



 (Surgiram-me estas palavras ao ver as janelas sonhadas de Silvina Santos)


Nas suas mãos nascem teias,
Nascem cores, nascem laços e janelas,
Nascem frutos com sabores,
Emoldurados com sonhos,
De sonhos emolduradas,
Nascem aves, flores, rios,
Balões, baloiços e risos,
Sóis, borboletas, crianças.
Que vem vindo, chegam, espreitam,
E encantadas se sentam,
No teu banco de xadrez,
A imaginação ganha asas
Torna os sonhos em palavras
De histórias emolduradas,
Nascem casas, rostos, lembranças,
Porque nos seus olhos se espraia
A magia das crianças!
Vejo-a assim a criar coisas,
Assim como num pedaço de horta,
Onde por mãos de doçura,
Tudo brota! Tudo brota!
 

Poesia na EB2-3 de VNP

Só um cheirinho...

Saudade
A saudade é cinzenta,
É amarga,
Cheira a fumo,
É muito fria,
Tem o som da chuva,
O movimento dos lenços,
É pesada e faz-me sentir triste!

(Nuno 6ºA)

http://creardigital2.blogspot.com/2010/03/janela-dos-sonhos.html

"Calema" no dia da poesia...


Obrigada pelo que nos deixaste para saborear.

http://jcalema.blogspot.com/2010/03/dia-da-poesia.html

20 de março de 2010

Cousas da “nossa terra”


        No sossego da manhã, enluarados estão os campos...
       Maria e Tónio, erguem-se. Sentada na beira da cama, ela faz a trança ainda negra, enrolando-a num “poupo”.
       - Mexe-te mulher!
       - Credo, home, inté parece c’anda o fogo cá drento, devagar, se começa o dia, bai mas é tirar o bibo, q’eu inda bou à cozinha buscar a bolça da merenda, e a ti Ana do Arrocho inda não chamou p’la gente.
       Descendo as escaleiras , tónio tira o bibo, abrindo cortes e cortelhos.
       - Já te disse, Maria, o raio das pitas só m’impecilham.
       - Cala-te, home, qu’inda bão dando uns oibinhos.
       - Já disse! Num quero cá desse gado, vai-te lucro que me dá perca... E as vacas trazem cá uma esgana por causa do raio das pitas...
       Manhã fora, juntam-se como tufos de flores na Primavera, rios ondulados, caminhando que a leira é grande e há que sachar o milhão.
       Maria ri, sentada a canchas-pernas na burra.
       Como uma seara baloiçando, os corpos baixam-se, sacham, limpam, e cantam:
               P’lo mar abaixo
               Vai um piparote
               Se ele tiver vinho,
               Tirai-lhe o batoque.
       Hora do meio dia, na casa de um relógio medido pelo sol.
       Nos rostos tisnados, em mudo consentimento, rezam e juntam-se á volta do castanheiro.
       Hora pequena, apetecida...
       Saindo das bolsas salpicão e presunto, nacos de broa, tirando todos da mesma malga esgaritada, mãcheias de azeitonas, entornando goela abaixo, golos de vinho do molato.
       - Ora bão bendo, a chiba da ti Questódia Ferrolha anda a roer os gaimões.
       - Cala-te, quinda a somana d’alem, a levei ao preto da ti Maria Chamiça e olha qu’é um chibo bô.
       - Diz que está comá bitela do Morcas, inté já lá foi o emprenhador e sabeis o que diz o home? Diz p’ra lhe dar umas inchechões.
       - Credo, Santo nome de Jesus, como é qu’áde a chiba imprenhar com inchechões?
       Maria olha o sol, e corta aquela conversa de vidas diárias que se repetem.
       - Olhe ti Questódia, coma mas é o presuntinho e beba mais uma pinga, qu’a leira inda nem no meio está e vocemecê, bem sabe que o milhão precisa sachado...
       - Cá m’importa c’o milhão, ou c’a milhoa, qu’ando morrer bou deitada...
       - Ó ti Questódia, vocemecê também me saiu cá uma doletra!
       Estrada fora, partem ao toque das Avé-Marias. Cansados, despedem-se, indo acomodar o bibo.
       Noite já, Maria ainda vai à horta apanhar um braçado de caldo prós porcos.
       - As coibinhas já só tem olho, a sequeira é tanta! E não chobe, que miséria vai ser este ano...
       - Deixa lá mulher, Deus bem sabe o que faz, bai mas é fazer a áuinha d’arroz, e bamo-nos deitar, c’á manhã temos d’ir cortar o feno, lá pró inferno das Zaroteias.
       Espaço próprio, impossível de repetir-se, são as aldeias Beiraltinas, cantos do mundo, fora do tempo.
       Do lado norte da vida, a terra é casa, paz e morada, é ali que se prolongam os dedos, a alma... rítmicas raízes.
       Terra, anca fecunda, deste suor que sorri, porta extrema do amor e da memória, e na casa do peito, uma urgueira florindo, tocando o sol-posto num toque de finados.
       Secreta retina, com a terra, como irmã ou filha à ilharga.

19 de março de 2010

Março, 19...


(Mais um habitante na ilha) 


As marés rodearam-me

Tenho no coração um colar de oiro     líquido

Água a boiar       nenúfar cor de céu

A alegria e as palavras de encantar existem no lugar onde me habito!