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30 de janeiro de 2010

Cais demorado

     Retirou a maré submersa... um tempo... um cais demorado.,. um pão ázimo... no tempo da memória a ilha mingou.
       Maria sabia que as férias estavam a chegar, subia as escadas do sótão num ar de ciclone, aprontava o saco de viagens... voavam pelo ar todas as coisas e mais a vontade daquelas férias, de permeio a ideia de se ausentar.
       Sentou-se na cama da colcha de farrapos, que já tinha ido a S. Jorge no Terra Alta e chegado ao Porto de Pipas com um rato l á dentro... "rato com pretensões a turista".
       Num sobressalto ergueu-se, tinha de levar aquele livro de histórias, e ainda a melhor maneira de o fisgar à irmã...
       Arre! Aquele buraco no chão era um desatino, a mãe já lá tinha enfiado uma perna, ficando com ela a abanar no corredor, o que por certo não lhe aconteceria, dadas as suas frequentes viagens àquele lugar de garrafas, cestas, caixas e uma cama (sempre vinha um. parente de algum lado).
       Ainda havia mais um, dia de aulas, depois partiria.
       Era um desassossego... depois Rafa não estava lá, deixara-lhe um tempo vazio povoado de fantasmas... Parou a mala a meio do sótão, e num sonho acordado de tristeza ressequida, chorou todas as lágrimas da saudade.
       Às vezes embrulhava-se toda em ondas de recordar e lá ia por todos os caminhos que tinha percorrido num velho "Volks", velho e verde. Tudo tinha sido verde entre eles e as palavras que vinham do espaço de sentir.
       Caminhos velhos que ela queria recordar para acreditar, mas que no fundo nunca mais voltariam, vivia entre eles e pelo meio o canal das palavras que se sentiam e não se diziam, ficando sempre por dizer.
       Rafa tinha partido num barco cheio de fardas e boinas, revoltas e medos... atravessaram o Oceano cartas que escrevia à luz mortiça do quarto, era o tempo de se encontrarem, aliviava-lhe aquela ausência... mandava-lhe palavras feitas sorrisos em envelopes de janela, com abraços escondidos pelo meio das reticências.
       Maria odiava aquela guerra.
       Levantou-se, saco de viagem na mão, cheio de coisas e duas cartas... O mar era um turbilhão de azul e paz, as pernas ainda mareando, acampou no cais do Pico.
Os homens carregavam sacas cheias de cracas, e as mulheres coziam pão redondo, achatado, com sabor a milho e tocavam viola da terra noite a dentro.
       Já não podia mais!
       Tinham passado semanas.
       Manhã cedo juntou os cacos, fez um lugar na Espalamaca, até ao Faial.
       Meteu-se no Espírito Santo... rumou à ilha dos bravos, às suas coisas.
       Com a força de todos os ventos que não tinham eco em lugar nenhum, voltou para o sótão.
       Com as lembranças, dormiu muitas noites na sua cama da colcha de farrapos, esperou, e deitou-se e acordou com aquela espera... perdida por fora, sábia por dentro.
       E vivia quase como um canário, que haviam fechado na gaiola e pendurado num arame da trave mestra e que nem o chiar da rolha no vidro da garrafa animava.
       Pássaro sem nome.
       Rafa voltou e riram e pintaram numa tela de esperança um verde novo, durou pouco aquela tinta, pintada à pressa com medo de acabar.
       Mais folhas tombaram do calendário e ele partiu. Maria voltou a esperar que o tempo se cumprisse.
       No peito onde o guardara, cresceram nós, ganchos, âncoras...
       ...Joaquim, o carteiro abanava o corpo num andar marítimo...
       ..."E não há nada menina... para a próxima!...
       Rafa viera e partira, correndo a vida rápida entre o amanhecer e uma lágrima que doía pelo espaço que havia para sorrir.
       Maria avançou por dentro de si devagarinho, cortou cada nó, cada gancho, soltou as ancoras, guardou tão só um novo renascer que havia de florir em qualquer campo verde.


7 de janeiro de 2010

Regressos


       Calças aos quadrados, casacos em xadrez miúdo barrigas proeminentes, gravatas vermelhas, verdes, azuis e óculos, óculos com aros de bico d’estrela e dois brilhantes na ponta. Aros grossos com dioptrias a 50º a Norte do horizonte.
        Caía uma neblina de entardecer nas azáleas floridas.
        Eram meados de Maio. E o sol insistia.
       O cais enchia-se. Manhã cedo era uma azáfama, um corre, corre, a alcatra feita na véspera, noite fora, com ânsia de abraços, os bolos de massa sovada, cobertos de pano branco, cheirando a chegadas.
       A melhor roupa, o melhor fato e veste os pequenos, e mexe-te p’ráqui e mexe-te p’ráli. É dia de S. vapor, mas aquele vapor vinha a transbordar de parentes da América, de novidades, de alegrias.
       Festa do Divino Espírito Santo... os ilhéus voltam sempre
       Eram um quadro de vida, escorrendo ternura. O mar ondulando. Gente como marés, a terra esvazia-se e abre caminhos em direcção ao Oceano. Fala-se e espreita-se o horizonte e buzina o barco virando a ponta da ilha… as lágrimas já correm, os pequenos sobem ao farol, saltam inquietos.
       Numa enxurrada chegam-se à beira.
       Os abraços caem como a saudade… frutos maduros.
       Á Francisco, estás tão profeito!
       E já no cais vão combinando, que o Chico é mordomo e vai coroar e dá a Função...
       Á Francisco na t’apoquentes foi mê pai que criou o bezerro.
       Ilhas não têm só partidas, são também terras de chegadas.
       E está tudo na mesma, a horta, o quintal.
       Tudo brilha, escasqueadinho.
       E trazem lembranças e enchem-se as gavetas de roupa corações de agradecer, palavras de felicidade em reboliço
       E faz-se a Função, enchendo o quintal de mesas e bancos, os meninos saltam e correm vestidos de branco, volitando anjos na lembrança para o tempo de recordar.
       Nas panelas ferve a sopa do Espírito Santo com raminhos de hortelã, o vinho corre p’los copos quais bodas de Canaan.
       São os olhos a transbordar de afeição, o tudo saber o sonho final.
       E é cais de novo porque os dias não fingem que o são.
       A buzina do barco, um choro com sentido incomoda e rói.
       O tempo daqueles doze meses há-de escoar-se em marés de retorno.
       Um lenço que acena, uma lágrima que diz:
       -Até p’ró ano!
       -Até p’ró ano!